domingo, 28 de julho de 2019

A Caverna de Platão





Sinto o céu e as montanhas. 


Sinto o vento secando minhas lágrimas, 

bagunçando meu cabelo… 




Sinto-me um prisioneiro que escapou 

das frias correntes da caverna de Platão. 

Mil anos olhando uma parede 

brincando e chorando com sombras, 

gritando, beijando, salivando loucura 

e palestrando para bonecos de madeira. 

Sempre estive só. 

Só, no desespero da lama, 

no uivo por ninguém ouvido, 

na conversa no pé do ouvido, 

até no febril calor dos hálitos 

das bocas embriagadas pelo desejo. 




Céu e montanhas e o vento, 

Ah, o vento… 




Para cada gargalhada 

há um grito de socorro. 

As raízes da árvore de sangue 

são prazeres exigindo mais. 

Seus frutos coagulados são salgados 

com o sal de todas as lágrimas do mundo. 




Olhei nos seus olhos... 

brilhantes como pedras preciosas e frias. 

Minha boca estremeceu na mudez de um pedido de ajuda. 

Você pisou em meu pescoço e me estripou 

com a lâmina cega de suas palavras. 

Depois beijou as minhas lágrimas 

e fizemos amor sobre um leito de dores, 

sobre o sangue meu e teu, 

quente, fétido e perfumado. 

Flutuando sobre o caos 

sonhando com uma ordem que não existe. 




Montanhas, céu… 

Olhando, olhando... 

Sendo, finalmente sendo. 




Mas me volto para a caverna dos meus pesadelos, 

pois sou fraco 

e não posso manter mais meus olhos abertos. 




                                                                     Clareses

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