segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O Beijo da Serpente



Entre névoas de sinistros contos,
a lua cheia escurece a minha sombra.
Caminhando na noite de humanos sonos,

eu e meu vulto flutuamos juntos pelas ruas
nas fronteiras da luz e da escuridão
ouvindo as esquerdas preces suas.

Pela janela aberta do seu quarto de profetisa,
esperando pelo noturno ser maldito,
sinto o seu perfume trazido pela brisa

acelerando a velocidade do meu sangue
em corredeiras de fogo
que ardem pelo meu corpo, antes tão exangue.

Não consigo entender o clamor da sua boca
a um vil eremita da noite
acorrentado a uma alma tão oca.

Eu tenho mil máscaras para devorar a luz,
estou em toda parte onde o desejo clama.
Meu anjo, acorde para o beijo que reluz

nas trevas do Pandemônio
que navegam pelo oceano dos seus seios,
fazendo melodia dos seus ais, sorvendo em matrimônio

a sua mais intensa respiração embriagada.
Quero beber o caro licor
da sua pele tão doce e aveludada,

gritando por êxtase delirantemente,
enquanto sorvo toda a sua esperança.
Acorde meu bem, para o beijo da serpente.

Eu sou dor e prazer sem fim.
E sangue e vida tirarei de ti.
A não ser que você mate a mim.

Mate-me! Mate-me com a adaga
do coração do seu coração.
Lute contra o fogo que te ataca...

Pois a compaixão de minha alma
é um frágil lume...
Como? Não precisa, de si mesma, ser salva?

Então me abrace,
eu sou a serpente que se devora.
Venha, venha! E se abrase!

Dai-me a Beleza para que eu a converta em trevas.
Sim, sim, dai-me tudo!
E sejamos como um só, escravos da serpente por todas as eras.


                                                                                                           Clareses


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